Onze Réplicas a António Costa Santos, Pedro Rolo Duarte e a mais uns quantos “do contra”

Em réplica a um texto de António Santos e a um post no blog de Pedro Rolo Duarte (que por coincidência, já morou na mesma casa, na Avenida, onde escrevo estas linhas e de quem ainda recebo correspondência que, diligentemente, entrego na Livraria Barata):

António Costa Santos
“A petição “Não queremos uma Loja dos 300 no Londres” irrita-me. Irrita-me, para já, o politicamente correcto “Loja dos 300”, a disfarçar, quando se sabe que o cinema vai ser substituído por uma “Loja do Chinês”. Dá-me vontade de perguntar: “E se for uma Zara, já queremos? Prada? Loja das Meias? Talvez uma sex-shop?” Mas o que mais me irrita é que anda tudo a comer pipocas nos multiplex, deixam o Londres (mais o King, mais o Quarteto, mais, mais) ir à falência e ainda por cima esperam quase um ano (faz em Fevereiro) sobre o fecho para desatarem a “petir”, quando a sala já foi desmanchada e assinado um contrato de arrendamento com uns comerciantes quaisquer (chineses, so what?). Há uma sala de cinema em Carcavelos com uma programação belíssima, o Atlântida, que passa filmes só para mim, das vezes que lá vou. Está sempre às moscas. Os peticionários deviam era marchar para lá, antes que os donos do cinema se cansem de perder dinheiro.”

1.
Em primeiro lugar, o autor deste panfleto, identifica-se ideologicamente no seu perfil facebook como sendo “do contra”. É portanto – nas suas próprias palavras – contra tudo o que se faça, seja lá o que for. Menos escrever no facebook, comodamente sentado no sofá. Disso, já parece ser a favor.

2.
Estes “senhores irritados” não fizeram bem o trabalho de casa, não estudaram, nem se foram informar antes de produzirem o produto da sua irritação: não há uma, mas DUAS petições: uma física, do movimento informal de comerciantes (e que pode ser assinada nas lojas da Avenida) e outra, online, do movimento autárquico de cidadãos (o http://www.MaisLisboa.org, núcleo local da associação cívica www.MaisDemocracia.org). A “irritação” toldou-lhes o espírito e o discernimento.

3.
A petição não usa o termo “chineses” intencionalmente. Não visa uma etnia, mas uma ocupação comercial de um espaço por um tipo de atividade de que não pode ser melhor descrita que “loja dos 300”. A expressão é a forma mais adequada para descrever uma atividade comercial de propriedade de cidadãos de nacionalidade chinesa, que comercia unicamente produtos de baixa qualidade e baixo custo manufaturados na China, que não emprega cidadãos portugueses, que não paga Segurança Social, que não passa facturas e que não paga IRC (admitem-no os próprios, sem descreverem o detalhe do mecanismo de fuga). Não interessa se estas “lojas dos 300” são de chineses, paquistaneses, vikings, marcianos ou de turcomongóis. Interessa que são lojas de produtos de baixa qualidade e que iludem a maioria das regras de concorrência que os outros dos comerciantes do bairro são obrigados a seguir.

4.
Confirmo: “Não queremos (também) uma Zara”. Queremos comércio local, para locais, que comercialize principalmente produtos locais ou nacionais. Queremos continuar a campanha https://www.facebook.com/CampanhaVamosAjudarPortugal em que distribuímos folhetos a cidadãos, lojistas, etc (pagos do nosso bolso) durante meses (antes das autárquicas).

5.
O primeiro peticionário e a sua família eram assíduos frequentadores (numa base mensal) do Londres e do King. O primeiro filme da minha filha foi visto no King (um “Estúdio Ghibli”) e “Brave” foi o último que viu no Londres. As salas estavam cheias? Não, decerto que não. E por isso mesmo é que a proposta MaisLisboa (algum dos “cidadãos irritados” a leu?) concebe o uso do espaço do Cinema de uma forma muito polivalente: uma sala de cinema, uma sala de debates, reuniões e conferências, uma repartição do espaço interior em pequenos espaços comerciais, com restauração e cafés, uma repartição do espaço por startups culturais e artísticas e uma instalação no interior do espaço por pequenos expositores e mesas a usar (como projeções) das lojas do bairro. 1300 m2 dão para isto e para muito mais… assim haja vontade.

6.
O fecho do King é possivelmente ainda mais danoso para a oferta cultural do bairro que o do Londres. Mas este espaço não está ainda a ser destruído. Nem há indícios da sua iminente ocupação por uma “loja dos 300”. No Londres, não só as obras já começaram, como todo o processo parece já quase irreversível (foi assinado um contrato a 10 anos e pagos adiantamentos de 6 meses de renda). O Londres é o momento. O King é o caso a seguir de perto.

7.
Dizem os “cidadãos irritados com a petição” que “passou um ano depois de petir”. Dizem-no sem saber (e como é fácil criticar sem fazer…) que só em começos de dezembro fomos alertados para a ocupação do Londres por uma loja dos 300. Dizem-no sem saber que gastámos 9 dias a procurar alternativas para bloquear o processo (CML, Junta do Areeiro, Escritura de Propriedade Horizontal, Licenciamento, Registo Predial, Contactos com autarcas e comerciantes, etc, etc, etc). Só depois, é que lançamos a petição, julgada então como a única abordagem que restava, já que somente pela via da pressão junto do proprietário e do arrendatário, se poderia obstar à destruição deste histórico cinema lisboeta.

8.
O proprietário diz ao Público que “esteve 10 meses a tentar manter o uso cultural do espaço”. É estranho. Ninguém na CML ou na Junta deu sinais desses contactos. Outros moradores (o proprietário reside no prédio) não sabiam que se procurava alternativas, nem sequer que o espaço estava disponível para ser alugado. Nem nunca houve qualquer sinal “aluga-se”, nem outra forma de colocação do espaço em arrendamento. Todo o processo foi muito pouco transparente e combinado de forma “secreta”: o proprietário faz questão de manter o anonimato (apesar do seu nome ser do domínio público, constando do registo predial do número 7-A) e a verba do arrendamento (“menos de 6 euros por m2”), estranhamente baixa e inconsistente com a informação que consta no site do sindicato,  que data do tempo da falência da Socorama e que menciona que “o regresso do uso como cinema foi inviabilizado porque o proprietário exigiu uma duplicação do valor da renda”.

9.
O Londres só começou a ser (aparentemente) desmantelado há 2 semanas. Até lá, tudo parecia intacto e preparado para a eventual reabertura do cinema. Foi a partir desse momento, que os indícios da perda do cinema foram marcantes, até lá tudo indica que havia intenção do proprietário em manter o espaço na área cultural. O próprio o admite, aliás, em declarações dadas ao jornal Público.
10.
Quando os “cidadãos irritados” apelam a que se “marche para outros cinemas de programação cultural”, pois que o façam para os cinemas do seu bairro. O Londres está no nosso bairro e marchámos e marchamos para o Londres, em sua defesa. A cada qual a sua causa, sendo todas válidas, desde que não estejamos “contra” todas, o que parece ser o caso (ver secção “ideologia” do autor do texto).
11.
A petição não esgota a proposta MaisLisboa para o Cinema. Focar aqui a crítica é desfocar no que é essencial e este essencial é a proposta http://www.maislisboa.org/2013/12/23/proposta-maislisboa-para-salvar-o-cinema-londres
Esta proposta merece comentários, críticas, correcções, análise e o decorrente trabalho de voluntariado. A petição, em si, não merece grandes comentários: é uma parte da proposta para o Londres, não “a proposta” MaisLisboa para o cinema.
Um texto da responsabilidade de Rui Martins
(grupo de coordenação do MaisLisboa)

One thought on “Onze Réplicas a António Costa Santos, Pedro Rolo Duarte e a mais uns quantos “do contra”

  1. Rui Martins, não se irrite. Este texto da sua responsabilidade baralha várias coisas e vamos lá ver se me faço entender. Vou seguir os seus pontos, ok?
    Ponto 1. Ser “do contra” é uma expressão popular, que não define nenhuma ideologia. Vem do tempo do fascismo. Eram “do contra” os antifascistas. O Rui não é obrigado a saber isto, mas não pode dizer, muito menos afirmando que é “nas [minhas] próprias palavras”, que ser do contra é estar “contra tudo o que se faça, seja lá o que for”. É abusivo. Quanto a escrever no Facebook, percebo que tenha querido “mandar uma boca”. Saiu-lhe uma demagógica. Acontece.
    Ponto 2. Não vejo a razão pela qual para criticar como critiquei a petição da Loja dos 300 precisasse de estudar mais alguma coisa, ou fazer qualquer “trabalho de casa”. O Rui confundiu um post publicado por um cidadão na sua página de uma rede social com um artigo de jornal, ou coisa que o valha. O post toldou-lhe o espírito e o discernimento, talvez.
    Pontos 3 e 4. Confirma os meus receios. Ponto 5. Este cidadão irritado não leu a proposta MaisLisboa, a leitura das suas propostas não é obrigatória. Teria lido, se se referisse a ela, mas não se referiu, portanto…
    Ponto 6. Passo.
    Ponto 7. O que eu disse foi que a petição surge quase um ano depois de o cinema ter fechado. O que o Rui diz é que o fecho do cinema não vos incomodou, só quando souberam da loja dos chineses é que se mexeram. Confissão lamentável.
    Pontos 8 e 9. Não me dizem respeito.
    Ponto 10. Cada um que se governe? Bonito espírito. A rematar este ponto, uma vez mais o informo de que se espalhou naquilo do “contra”.
    Ponto 11. Também não me diz respeito. Registo, porém, a informação de que a petição não esgota a proposta. Era muito mau para a MaisLisboa se esgotasse, porque a petição é irritantemente inútil e tem um ligeiro perfume de xenofobia, elitismo e chauvinismo bairrista que só ficariam mal a tão meritória organização.
    Bom trabalho e vejam lá se salvam o King, mesmo que não esteja ameaçado pelos chineses! Não fica no meu bairro, mas interessa-me.

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