Notas para uma “Caminhada pela Calçada Portuguesa de Lisboa”

1. Jardim da Estrela
1430-1500

Contexto:
* O Jardim da Estrela (ou Jardim Guerra Junqueiro) foi mandado construir pelo Marquês de Tomar e foi inaugurado em 1842.
* O Jardim foi construído graças a donativos particulares
* Existem motivos esotéricos na entrada via Basílica e na lateral da entrada via Álvares Cabral

* Esfera Armilar
** Este instrumento astronómico e de navegação foi muito usado na Era dos Descobrimentos.
** Terá sido trazido pelos templários, ter em conta que o Infante D. Henrique era o grão-mestre da Ordem de Cristo.
** Dom Manuel I incorporou a Esfera Armilar na sua bandeira pessoal.
** Era o estandarte dos navios da rota Portugal-Brasil do século XV e XVI (“bandeira das naus do Brasil”)
** Surge em praticamente todos os monumentos do Manuelino (p.ex. Jerónimos e Torre de Belém)

* Estrela de Oito Pontas
** falaremos dela no Marquês de Pombal

* Cruz da Ordem de Cristo (ou do Templo)
** Esta cruz é também conhecida como “cruz pátea” (do francês croix pattée) ou “cruz patada”, em que as pontas são mais amplas no perímetro que no centro, formando “patas”.
** a cruz pátea, começa num ponto, que simboliza a origem de tudo e a criação do Cosmos ou a emanação divina.
** os 4 braços externos representam os 4 elementos fogo, ar, terra e água, e os 4 braços interiores as 4 virtudes cardeais do Iniciado: força, justiça, temperança e prudência
** somando 4 + 4 temos o 8, número que simboliza a Unidade e a encarnação do espírito na matéria (Cristo). O 8 é o número templário.

* Triquetra
** A palavra significa tão somente “triângulo” e é muito comum na arte céltica das Ilhas Britânicas, e especialmenta na Irlanda.
** É muito usada como elemento decorativo simples, mas também no Cristianismo e na Bruxaria Wicca
** No celtismo representa as 3 fases da Grande Mãe, a energia criadora do Cosmos: a Virgem, a Mãe e a Anciã. Representa também a divisão celta do ano em 3 estações (primavera, verão e inverno)
** No cristianismo, a triquetra vale pela Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo)
** O cruzamento central vale pela perfeição, como no pentagrama (também presente aqui na calçada do Jardim)

* Estrela de Seis Pontas (Estrela de David ou “Magem Davi”)
** A sua origem é a de dois triângulos sobrepostos
** Também conhecida como “escudo supremo de David”
** “magem” significa “escudo”, “defesa”, “governante” ou “homem armado”, algo que protege
** este seria o símbolo dos escudos dos soldados hebreus, no reinado de David
** surge em muitas sinagogas do segundo templo e do período romano, aparentemente apenas com valor decorativo.
** a partir do século XII, na Cabala, assume um carácter de amuleto protetor.
** a partir de 1354 torna-se um símbolo da comunidade judaica, quando Carlos IV concede à judiaria de Praga a sua própria bandeira (“bandeira de David”). Foi usada pelos Nazis e hoje incorpora a bandeira de Israel
** o símbolo representa a ascensão da terra para o céu (triângulo terra, triângulo ar)

* Três estrelas de cinco pontas umas dentro das outras
** “o que está em cima é igual ao que está em abaixo”, signo da unidade do Cosmos e da ligação do micro ao macrocosmos)
** O pentáculo representam o Ser Humano e Leonardo da Vinci usa-o no seu célebre “Homem Vitruviano”
** nos romanos, era o símbolo da deusa Vénus
** simboliza o Infinito, e o cinco, ou união dos desiguais, pelo casamento entre o masculino, 3 e o feminino, 2, valendo assim, na Alquimia, também pelo andrógino.
** muito usado na escola francesa da Cabala como amuleto protetor contra o Mal.
** a Escola Pitagórica usava o pentagrama como símbolo
** na religião romana, o pentagrama simboliza os cinco elementos (ar, fogo, água, terra e espírito)

2. Descida a pé pela Álvares Cabral
1500-1515

* O monumento a Pedro Álvares Cabral, foi inaugurado em 1941, com honras militares. O monumento é uma réplica de um existente no Rio de Janeiro e foi da autoria do escultor Rodolfo Bernadelli (em 1940).
** foi oferecida ao governo português pelo governo brasileiro

* na avenida, encontramos o “Salão de Jogos Monumental”, que se tornou uma loja chinesa em 2006
** aqui, nas décadas de 1930 e 1940 tinham lugar grandes festas e bailes
** tinha um arranjo interior raro, com plataformas e corredores
** foi cenário de vários filmes como o “Kilas, o Mau da Fota”
** classificado desde 2002, como imóvel de interesse público pelo IPPAR
** modernista, art déco, construído em 1930 com projeto de Raul Martins
** a garagem monumental é hoje a proprietária do conjunto

* a Calçada Portuguesa é também chamada de “mosaico português” ou “pedra portuguesa” no Brasil.

* além de Portugal, é também usada no Brasil (Manaus, Avenida Central e Copacabana), em Angola (Lobito), EUA, Cabo Verde,
Macau e em Moçambique (Maputo)

* geralmente é usado calcário branco e negro (basalto mais raramente, do vulcão de Lisboa Ocidental). Nas ilhas, o preto, contudo, é feito em basalto, já que ele aqui é muito abundante. Quando é basalto, o corte é muito mais irregular (em Lisboa, um caso raro de uso é o Largo do Carmo)

* cores: preto e branco, geralmente, mas também surge o castanho, o vermelho, o azul e o amarelo

* os trabalhadores são conhecidos como “mestres calceteiros”

* a “calçada à portuguesa” é diferente da “calçada portuguesa”:
** a “calçada à portuguesa é de aplicação irregular e as pedras têm formas irregulares
** a “calçada portuguesa” é composta por cubos e tem um enquadramento diagonal.

3. Rato a Marquês de Pombal
1515-1530

* os primeiros pavimentos calcetados surgiram em Lisboa, no século XV
** Dom João II, êxodo rural e sobrepovoamento
** “Ruas novas” riberinhas e comerciais
** Navio que em 1485 traz no lastro o primeiro carregamento de pera. Esgotou-se e abriram pedreiras em Cascais, com contratos de transporte com pescadores da região.
** CML pede empréstimo ao hospital de São Lázaro e cobra impostos para custear a pavimentação da “Rua Nova Del Rey”
** Os moradores por lei, tinham que limpar o espaço frente às suas casas
** duas cartas régias de Dom Manuel (1498 e 1500) indicam a “Rua Nova dos Mercadores” como a primeira a ser calcetada em Lisboa
** Todos os que deitassem lixo ou animais mortos eram punidos com multa ou 20 dias de cadeia
** o lastro das naus era a origem da maioria da pedra das calçadas
** esta rua é referenciada desde o século XIII, sendo a maior rua da Lisboa medieval, indo desde a atual Rua do Ouro (cruzamento com a Rua de São Julião) até à esquina da Rua do Comércio com a Rua dos Fanqueiros. Aqui estavam as mais opulentas lojas da capital, a par de vários serviços relacionados com o mundo dos negócios e finança. Em meados do séc. XVI, o espaço de encontro dos mercadores foi delimitado por um gradeamento, passando esta zona da artéria a ser denominada por Rua Nova dos Ferros. A via manteve o estatuto de nervo comercial da cidade nos séculos subsequentes, ficando completamente arrasada pelo terramoto de 1755.
**o material usado no século XV era o granito do Porto, transportado por mar, o que tornou a operação muito cara. O objetivo era que a Ganga, um rinoceronte branco, ricamente ornamentada, não sujasse de lama com o calcar das suas pesadas patas, o numeroso e longo cortejo, com figurantes aparatosamente engalanados com as novas riquezas e adornos vindas do oriente, que saía à rua em pleno inverno, aquando do seu aniversário a 21 de Janeiro. A comitiva ficava manifestamente suja, daí a decisaõ de calcetar as ruas do percurso como forma de dar resposta ao problema. Sendo a única vez no ano em que o rei se mostrava à população vem daí a expressão: “Quando o rei faz anos…”

* na reconstrução de Lisboa, depois de 1755, os custos e a necessária rápida reconstrução tornaram impossível o recurso à calçada.

* mas a “calçada à portuguesa” surgiu apenas em 1842 com calcário branco e negro.
** o trabalho era realizado por presidiários, os “grilhetas”, a mando do governador de armas do Castelo de São Jorge, o tenente-general Eusébio Pinheiro Furtado.
** o desenho era de zig-zag simples conhecido popularmente como “cristalizações”, com referências p.ex. num poema de Cesário Verde.

* em 1986 é criada a Escola de Calceteiros

* As pedras da calçada são trabalhadas aproveitando as diáclases do calcário, uma rede de finas fraturas (e que em maior escala, se observam nas falésias do Guincho, p.ex.).
* Estas diáclases são provocadas pelas pressões tectónicas e pela perda de água.
* Com um martelo, os calceteiros fazem pequenos ajustes à forma da pedra e colocam-nas usando moldes para identificar as zonas de diferentes cores e os padrões

4. Praça do Marquês de Pombal
1530-1545

** Lenda dos corvos de S. Vicente:
Após a derrota do rei visigótico Rodrigo na batalha de Guadalete, os invasores muçulmanos ocuparam toda a Península e, segundo a lenda, ordenaram a transformação de todas as igrejas em mesquitas.
** Em Valência, um decano decidiu colocar a salvo o corpo do mártir São Vicente que aqui se encontrava e ordenou o seu embarque num navio para ser enviado para as Astúrias, onde persistia a governação cristã. A embarcação passou as Colunas de Hércules, mas encontrou no Atlântico uma grande tempestade aportando ao Promontório Sacro (Sagres). Os cristãos colocaram a hipótese de desembarcar e construírem um templo em memória de São Vicente e ainda não tinham decidido o que fazer quando o navio encalhou. Ali passaram a noite. Quando, no dia seguinte e depois de terem libertado o navio, iam retomar viagem, foram surpreendido por um navio pirata. Precipitadamente, alguns desembarcaram na praia, com a relíquia, enquanto o navio se procurava afastar dos piratas. Talvez capturado por estes, nunca regressaria e os cristão acabaram ficando por ali construindo o templo que antes tinham chegado a pensar erguer. Em torno do templo, ergueram uma pequena povoação onde viveriam e formariam famílias, mesclando-se com as populações locais.
** Quando as operações militares de Afonso Henriques penetraram no Algarve, por pouco tempo e em operações de guerrilha (fossados), os mouros locais vingar-se-íam dos cristão arrasando a povoação cristã de São Vicente e escravizando os seus habitantes. 50 anos depois, Afonso Henriques tomou conhecimento desses cativos e foi o próprio decano de Valência que, já muito idoso, narrou o sucedido ao monarca português descrevendo ao rei onde havia escondido as relíquias do Santo, pedindo-lhe que as resgatasse e as transferisse para um lugar seguro. O rei aceitou o pedido e embarcou pessoalmente num navio, juntamente com o decano, para o cabo de São Vicente. Este, contudo, morreria durante a viagem e sem dizer exactamente o local onde estava escondido o corpo do Santo. O rei, desembarcou e encaminhou-se para as ruínas do templo, avistando aqui um bando de corvos que sobrevoavam um local rochoso no solo. Os seus soldados escavaram aqui e encontraram o corpo de São Vicente.
** As relíquias foram levadas para Lisboa, sendo o navio escoltado durante toda a viagem por dois corvos, cujos descendentes se acredita terem vivido durante séculos na Sé Catedral de Lisboa.

* Estrelas de Oito Pontas:
** Estas estrelas são um conhecido símbolo solar. Muito usado desde a época neolítica e comum no sul da Península Ibérica surge, por exemplo, nas moedas turdetanas como símbolo político, sendo também usada no período muçulmano.
** Lenda maçónica: Os judeus, ainda no seu cativeiro na Babilónia usavam a estrela de 8 pontas para simbolizar Jeovah.
** Símbolo da renovação através do Baptismo
** Também chamada de “octogono”, signo do “amor divino” e da Pedra (ou Elixir), o produto da Separação e Recombinação (Solve et Coagula), que nos Tratados de Alquimia aparece por vezes simbolizado por uma roda de oito aros.
** Nos rosacruzes, o simbolo da estrela de oito pontas vale pelo Universo geométrico, guardado por oito anjos.

5. Descida da Avenida da Liberdade
1545-1600

* A geometria do século XX demonstrou que há um número limitado de simetrias possíveis no plano: 7 para os frisos e 17 para os padrões. Um trabalho de jovens estudantes portugueses registou, nas calçadas de Lisboa, 5 frisos e 11 padrões, atestando a sua riqueza em simetrias.

* Vários tipos de Calçada_:
** a antiga calçada à portuguesa, que se caracteriza pela forma irregular de aplicação das pedras
** o malhete, semelhante mas com mais espaço entre as pedras
** a calçada portuguesa clássica, que tem uma aplicação em diagonal, segundo um alinhamento de 45 graus com os muros ou lancis
** a calçada à fiada, com as pedras alinhadas em filas paralelas;
** a calçada circular;
** a calçada sextavada (figura 6);
** a calçada artística, que se caracteriza pela aplicação de pedras com formatos específicos e/ou pelo contraste de cores
**o Mar Largo;
** o leque segmentado
** o leque florentino
** e o rabo de pavão

6. Praça dos Restauradores
1600-1615

Obelisco:
* Na Praça dos Restauradores encontramos um grande obelisco, com 30 metros de altura e que foi inaugurado em 1886, comemorando a libertação de Portugal do domínio espanhol em 1640.
* As figuras de bronze representam a Vitória (palma e coroa) e a Liberdade. Os nomes e datas nos lados do monumento representam os das batalhas da Guerra da Restauração.
* O monumento foi custeado por subscrição pública, em Portugal e no Brasil.
* O projeto é da autoria de António Tomás da Fonseca, e as estátuas da Vitória e da Independência de José Simões de Almeida (lado norte) e Alberto Nunes (lado sul). A construção coube a Sérgio Augusto de Barros
* Foi neste momento que a bandeira republicana de 1910 foi hasteada pela primeira vez, a 1 de dezembro, comemorando os 270 da Restauração.

Calçada:
* esta calçada é obra de João Abel Manta. Arquitecto e resistente anti-fascista.
* foi responsável, com Alberto Pessoa e Hernâni Gandra, pelos projectos dos blocos habitacionais da Avenida Infante, ganhando o Prémio Municipal de Arquitectura de 1957
* A partir de 1960 deixou a arquitectura e dispersou-se a partir daí em várias artes, desde as artes plásticas, a cenografia, como cartonista e claro… por esta zona de calçada artística.
* é também o autor do painel de azulejos na Avenida Calouste Gulbenkian, Lisboa (concebido em 1970 e aplicado em 1982).

8. Rossio
1615-1630

* Depois do Castelo, os “grilhetas” receberam ordem para calcetar a Praça do Rossio

* Eusébio Furtado recebeu verbas para que os seus homens pavimentassem toda a área da Praça do Rossio, uma das zonas mais conhecidas e mais centrais de Lisboa, numa extensão de 8 712 m². A obra terminou em 1849.

* O padrão de desenho Mar largo é aplicado a calçamento de vias, em urbanismo. O traçado de suas linhas, alternadas em branco e preto, faz um paralelismo estilizado com o ritmo das ondas do mar e das marés. Embora alguns estudiosos afirmem que surgiu primeiramente na cidade de Manaus, no estado do Amazonas, durante a urbanização decorrente do ciclo da borracha, o padrão já existia em Portugal no século XVIII, segundo dados da época.
* O padrão foi mantido por Burle Marx em 1969, quando foi refeito o calçamento da orla marítima do bairro de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, por exemplo. Na ocasião o padrão foi multiplicado por três e disposto no sentido longitudinal, ao contrário do original, disposto transversalmente.
* Em Portugal foi recentemente aplicado no calçamento do Parque das Nações, em Lisboa. Também se observa no Estoril.

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