Carta MaisLisboa.org a José Sá Fernandes a propósito da Horta do Monte

Exmo. Senhor Vereador do Ambiente Urbano, Espaços Verdes e Espaço Público

Dr. José Sá Fernandes,

Verificámos in loco, na manhã de hoje, que a Câmara Municipal de Lisboa e a sua Polícia Municipal intervieram na encosta localizada na intersecção da rua Damasceno Monteiro com a calçada do Monte, protagonizando a destruição da designada Horta do Monte Projecto Comunitário, utilizando para o efeito a força física sobre alguns dos elementos deste projecto. Como o Senhor Vereador saberá, este projecto é constituído por um grupo de cidadãos de Lisboa que se dedicam à Permacultura, bem como a outras actividades de índole artística e cultural, fomentando o sentido de comunidade entre eles e ainda entre esta Horta de Monte e os vizinhos circundantes. Também é verdade que este projecto mereceu o próprio reconhecimento camarário, através do programa BIP/ZIP, edição de 2013.

Repudiamos a forma prepotente, violenta e com recurso à força, que hoje destruiu aquele projecto. Fazer avançar as máquinas sobre a Horta do Monte, destruindo-a e convertendo a questão numa matéria de “facto consumado”, é mesmo acto de terrorismo social. As pessoas, os cidadãos de Lisboa, merecem-nos o maior respeito e estávamos convencidos do que o Senhor Vereador José Sá Fernandes seria da mesma opinião e consequente conduta. Hoje, Senhor Vereador José Sá Fernandes, desiludiu-nos!

Ainda assim, exortamos o Senhor Vereador a desenvolver os seus melhores esforços, no sentido de dialogar com os responsáveis da Horta do Monte, para que se encontre uma solução que enquadre ambos os projectos – a requalificação ambiental da encosta em causa, mas também a prossecução do projecto da Horta do Monte, afinal composto por cidadãos que utilizam aquele espaço para desenvolver actividades que fortalecem o sentido de comunidade local e de cidadania em Lisboa. Não é isso – a capacidade de iniciativa associativa e a vida comunitária – que todos dizemos defender?

Solicitamos ainda ao Senhor Vereador José Sá Fernandes que nos mantenha ao corrente das suas decisões nesta matéria, de forma a podermos – enquanto movimento político dos cidadãos de Lisboa – tomar as diligências que considerarmos mais apropriadas para a defesa do projecto Horta do Monte, que nos continua a merece o maior respeito.

Aceite os nossos melhores cumprimentos,

A Agricul­tura Urbana na cidade de Chicago

As guerras do futuro serão mais guerras de água e alimentos que guerras por território e energia, como atualmente e no passado. Num contexto em que a população mundial não pára de crescer é cada vez mais importante que se desenvolva a produção agrícola, mesmo nos locais mais imprová­veis, como os espaços urbanos.

Neste contexto, a Agricul­tura Urbana assume-se como uma estratégia viável para enfrentar a insegur­ança alimentar, estimular o desenvo­lvimento económico e realizar reduções nas emissões de CO2 (menos gastos de transporte e armazen­amento de frio). A Agricul­tura Urbana não é nenhuma utopia. Ela foi adotada em pratica­mente todas as cidades, mas a sua relevância para a produção total de alimentos sempre foi difícil de medir. Um problema que um grupo de cientistas da Univers­idade de Illinois enfrentou ao desenvo­lver uma metodol­ogia que permite quantif­icar a produção de alimentos da Agricul­tura Urbana da cidade de Chicago. A metodol­ogia inclui além das clássicas hortas urbanas comunit­árias ou exploradas por ONGs (700 segundo listas oficiais), também jardins, hortas e varandas particu­lares, numa nova abordagem. A lista assim elaborada por carregada para o Google Earth lista no mapa jardins comunit­ários, lotes de jardins urbanos disponí­veis, quintas urbanas, jardins escolares e até “food gardens” domésticos que se queiram registar no sistema. A este registo voluntário ou intenci­onal, a equipa de investi­gadores da Univers­idade de Illinois somou uma tarefa intensiva de observação via Google Earth das zonas de Chicago que pareciam estarem também a ter uso agrícola, mas que não se encontr­avam registadas em nenhum sistema. Deste trabalho resultou a identif­icação de mais quatro mil “food gardens” anterio­rmente desconh­ecidos, quase todos situados em residên­cias e com menos de cinquenta metros quadrados. Visitas por amostragem confirm­ariam a função alimentar da sua maioria e a conclusão final de que existiam no interior do perímetro da cidade de Chicago uma estimativa total de 4648 locais de agricul­tura urbana, ocupando um total (estimado) de 264.181 metros quadrados.

Estas conclusões revelam que a agricul­tura urbana tem um contributo signifi­cativo para os alimentos consumidos na cidade de Chicago, dando um contributo para segurança alimentar na cidade, para o reforço dos laços comunit­ários e familia­res.